Discursos

15/04/2019

DISCURSO DE POSSE NA ACADEMIA CEARENSE DE LETRAS

Tales de Sá Cavalcante

Nobres acadêmicos,

Autoridades aqui presentes,

Dona Gladis, esposa, e demais familiares de Genuino Sales, meu nobre antecessor,

Senhoras e senhores,

Boa noite.

Assim como há pessoas ditas de sete instrumentos, existem aquelas de inúmeros atributos, intelectuais inclusive. Um desses raros homens é José Augusto Bezerra, e minha admiração por ele se dá porque tudo o que faz, faz bem feito, exceto em relação às palavras a mim dirigidas. Nesse momento, o exagero do amigo suplantou o seu perfeccionismo. Agradeço, portanto, ao confrade pela citada generosidade.

O notável Vinicius de Moraes poetizou O dia da criação a enfatizar a afirmação: “Porque hoje é sábado.” E, entre outros versos, romantizou:

 

“Hoje é sábado, amanhã é domingo

Amanhã não gosta de ver ninguém bem

Hoje é que é o dia do presente

O dia é sábado.

 

Impossível fugir a essa dura realidade

Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios

Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas

Todos os maridos estão funcionando regularmente

Todas as mulheres estão atentas

Porque hoje é sábado.”

 

Inspirado no diplomata que rejeitou negociar com países para jogar com as letras, o sucessor da Cadeira Nove, a lembrar o antecessor, diz com prazer:

 

“Porque hoje é quinze de abril.

Hoje também é o dia do presente.

O dia é quinze de abril.

Porque hoje é aniversário do professor Genuino.”

 

Neste mesmo dia, no ano de mil novecentos e trinta e oito, nascia um garoto merecedor do nome Genuino. Poderia ter recebido o nome de puro, amoroso, competente, digno, íntegro, verdadeiro ou valente, uma vez que todos seriam adjetivos adequados àquele que, ao radicar-se no Ceará, fez-se advogado, professor, pai querido, marido amado, amigo leal, um dos maiores educadores da história do Ceará e conquistou a imortalidade, no conceito tão bem definido pelo também imortal Pádua Lopes em seu brilhante discurso de posse, quando revelou: “Somos imortais não porque possuímos a imortalidade, senão porque participamos de um sistema que fecunda outros seres semelhantes numa cadeia interminável.”

A imortalidade de Genuino Sales foi por mim testemunhada, até que o educando aprendesse a conhecer, fazer, conviver e ser, conforme preconiza a UNESCO. Neste Sodalício, o mestre ocupava a Cadeira de número Nove, cujo patrono é Fausto Barreto, nascido em dezenove de dezembro de mil oitocentos e cinquenta e dois, na freguesia de São João dos Inhamuns, e falecido em vinte e nove de agosto de mil novecentos e quinze.

Iniciou seus estudos no Ateneu Cearense e no Seminário de Fortaleza e os concluiu no Rio de Janeiro.

Deixou o curso de Medicina, já bastante adiantado, para se dedicar ao magistério, a princípio como professor livre de Francês, Português, Latim e Inglês. Depois, foi aprovado em concurso para professor de Português do Colégio Pedro Segundo.

Foi deputado geral pelo Ceará, presidente do Rio Grande do Norte e um dos redatores da Tribuna, órgão liberal na Capital do Império.

Mestre da Filologia no Brasil, publicou: Arcaísmos e Neologismos da Língua, Temas e Raízes, Seleção Literária e Antologia Nacional.

A Cadeira patroneada por Fausto Barreto foi ocupada pelos notáveis Carlos Câmara, Fernandes Távora, Alencar Matos, João Clímaco Bezerra e, ultimamente, por Genuino Sales, a quem sucedo e sobre quem assim dissertei em artigo publicado no jornal O Povo.

 

“GENUINO ETERNO

A Fazenda Tamboril do Sales, em Pedro Segundo, no sertão do Piauí, testemunhou o nascimento de uma estrela. Surgia Genuino Sales. Tanto amava suas origens que, a pilheriar, escolheu para seu e-mail particular a expressão genumatuto@bol.com.br.

‘Lá aprendi a soletrar o mundo para leitura da vida’, escreveu Genuino. Ele leu e escreveu a vida. E na vida. Foi o mestre de todos da Organização Educacional Farias Brito. Tornou-se imortal por diversas Academias, algumas no seu Piauí, outras no seu Ceará, como a Fortalezense de Letras, a Cearense de Língua Portuguesa e a Academia Cearense de Letras, onde conviveu com a alta intelectualidade cearense.

Vi meu grande amigo e conselheiro de todas as horas, Genuino Sales, erguer, entre nós, Catedrais de Sonhos.

Disse o mestre: ‘Volto a sentar-me nas pedras ancestrais de meu terreiro; e me ponho a fitar a estrada longínqua por onde andei e que agora, encurtada, me aponta certezas das coisas inatingíveis. Vivo esperanças multiplicadas pela ousadia de meus sonhos e me assusto diante da eternidade das pedras (…) transformadas em cátedras (…)’

Genuino se fez pedra e se fez cátedra. Formou-se em Direito e em Letras, foi nomeado juiz, mas renunciou à magistratura, pois ensinar aos outros era o que o fazia feliz. Genuino foi um semeador de letras. Fez de onde ele estivesse o Espaço da Palavra. Amava os livros e fez-se o símbolo maior para quem abraça o magistério.

O mais eloquente exemplo de como se enfrentam as agruras da vida veio ao considerar-se um ‘parkinsoniano lépido’. Sua existência foi inspiradora. Cunhou frases lapidares como: ‘Uma coisa é o que eu faço, outra coisa é o que nós fazemos’, ‘Ando sem equilíbrio, mas não sou desequilibrado’, ‘A velhice é uma graça muito sem graça’.

Perdemos o contato físico com Genuino, mas ficam suas lições. Conquistou a eternidade das pedras. Viveu assim. Viveu bonito. Do sertão do Piauí a Fortaleza. Da sala de aula ao infinito.”

 

A mesma sincronia entre sucessor e predecessor, ora observada, não se deu na admissão do economista Roberto Campos, incentivado por Rachel de Queiroz a ingressar na Academia Brasileira de Letras. Este era tão à direita que alguns o chamavam de Bob Fields. Já o seu antecessor, Dias Gomes, era símbolo da esquerda. Assim se expressou Campos em seu discurso de posse:

 

“CONVITE TRISTE

Agora que conheço bem a obra de Dias Gomes, lamento não tê-lo conhecido em pessoa. Minha paisagem humana e cultural ficou com isto muito mais pobre. Se o encontrasse, seduzi-lo-ia para um encontro de fim de tarde, recitando-lhe o ‘Convite triste’, de Carlos Drummond de Andrade.

 

‘Meu amigo, vamos sofrer,

vamos beber, vamos ler jornal,

vamos dizer que a vida é ruim,

meu amigo, vamos sofrer.

 

Vamos fazer um poema

ou qualquer outra besteira…

Vamos, beber uísque, vamos…’

 

Eu lhe prometeria que não seria uísque nacional e que falaríamos mal do Governo, qualquer Governo. Pois, como dizia Milton Campos, ‘falar mal do Governo é uma coisa tão gostosa que não pode ser privilégio da oposição’.

Certo estou que ao fim de algumas rodadas, talvez na curva do conhaque, estaríamos do mesmo lado da cerca, concordando com as seguintes premissas:

– Todas as revoluções passam e, como nos alertou Franz Kafka, ‘só fica o lodo de uma nova burocracia’;

– Só há uma coisa errada com a palavra revolução. É a letra R;

– Há gente demais levantando muros e gente de menos construindo pontes.

Que pena, não ter tido um ‘papo cabeça’ com Dias Gomes. Que pena, meu Deus…”

 

A parafrasear Roberto Campos, posso dizer: Que pena não ter mais o Genuino ao meu lado. Era o homem ideal para ser consultado, quando uma adversidade surgia no processo educativo.

Que pena não poder mais estacionar, numa noite de muitas estrelas, na Rua Manuel Jesuíno, em frente à casa da mais reluzente das estrelas, para, diante de um problema a resolver, perguntar-lhe mais uma vez: “Genuino, o que tu achas?” E, vezes várias, o diálogo se dava no restaurante bem perto. Certa vez, a sorrir, Genuino mencionou o comentário do garçom após minha saída: “Se esse homem do carro bonito veio à procura de seus conselhos, é porque o senhor é mais rico do que ele.” E realmente era, pois possuía, em elevado grau, a maior de todas as riquezas: a sabedoria.

O primeiro estímulo para minha dedicação maior às letras veio por meio de um questionamento do padre Osvaldo Chaves, professor, poeta e patrimônio cultural de Sobral. Ao analisar texto de minha autoria a ser inserido em livro do professor Carlos Dias, declarou ao autor da obra: “Que pena. Por que ele perde tanto tempo com essas coisas empresariais? Deveria escrever mais.”

Quando, em casa, estou na biblioteca e me vejo na agradável companhia de Machado, Alencar, Shakespeare e tantos outros talentos, conflito-me se padre Osvaldo não estará certo. Talvez esteja.

Outro incentivo veio do imortal Ednilo Gomes Soarez, amigo por afinidade e concorrente no meio educacional por coincidência. Por muito tempo, ele me aconselhou a seguir sua trajetória de imortal. A julgar-me em dúvida se das Ciências Exatas, das Humanas ou das duas, sempre reagi. Confesso que mais simples foi a aceitabilidade do estímulo de Victor Frota, para a Academia Cearense de Engenharia, de Acelino Pontes, para a Academia Cearense de Matemática, de Lêda Maria e José Luís Lira, para a Academia Cearense de Cultura, e também de Roberto Ribeiro, para a Academia Cearense de Retórica.

Em confraternização da Associação de Bibliófilos, Ednilo, ao meu ouvido, discorreu sobre seus novos planos. Além de Fortaleza, iria morar também em Lisboa. A seguir a tese de padre Osvaldo, tenderia a ser mais sócio que diretor e se dedicaria com mais afinco à leitura e à escrita. Na nova vida, sairia da Academia Fortalezense de Letras e não aceitaria outro confrade a ocupar sua Cadeira senão o amigo Tales. Após pedido da adorável então presidente, Fernanda Quinderé, aceitei o desafio e me candidatei.

Depois da eleição e posse na Academia Fortalezense de Letras, hoje brilhantemente conduzida por Seridião Montenegro, apareceram oportunidades na Academia Cearense de Letras, mas declinei por algum tempo.

Surgiu, então, o xeque-mate em três lances.

Primeiramente, o honroso convite do acadêmico José Augusto Bezerra para a minha candidatura à Casa de Tomás Pompeu. Os argumentos do maior bibliófilo do Brasil me convenceram, em especial quando lembrou a profunda amizade entre sucessor e antecessor. De fato, Genuino, além de excelente amigo, era às vezes conselheiro, às vezes aconselhado, às vezes pai, às vezes filho, e sempre companheiro. E, ademais, se José Augusto apresentou a sugestão, certamente esta seria adequada à Academia por ele tão amada.

Depois, chegou a mim o dito de um partícipe desta Confraria, o notável professor, escritor e contador de histórias Juarez Leitão. Sob emoção, o mestre narrou confidência de Genuino ao comunicar-lhe que, após sua ida à outra dimensão, gostaria que sua Cadeira nesta Casa fosse por mim ocupada. E, como Juarez, Regina Fiúza, minha grande amiga desde os tempos de Colégio Batista e Diretora Administrativa deste Sodalício, informou ter ouvido de Genuino a mesma intenção.

E, ao ler o livro Academia Cearense de Letras – história e acadêmicos, do eminente médico e Presidente de Honra deste Colegiado, Murilo Martins, observei que esta Instituição foi fundada com o objetivo de, entre outros, “promover os exames das doutrinas ou questões literárias e científicas da atualidade”, propósito em sintonia com o meu perfil de educador.

Convencido pelos argumentos, decidi seguir o exemplo do empresário e jornalista Roberto Marinho, imortal pela Academia Brasileira de Letras, quando revelou que, desde jovem, convivia com os mais experientes, pois com eles muito aprendia. Igualmente, sinto-me honrado por estar neste ambiente de sábios, pois, nesse convívio, poderei assimilar parte de sua sabedoria.

Agradeço a acolhida dos acadêmicos que gentilmente me recebem. Muito aprendi com Genuino Sales e, aqui, continuarei o meu aprendizado.

Manifesto a satisfação de iniciar-me na Casa de Tomás Pompeu justamente quando quem a preside é sua bisneta, que, por sua vez, é a primeira mulher a liderar a casa de seu bisavô. Nossa presidente, sem dúvida, muito ainda contribuirá para a cultura cearense, uma vez que, em qualquer eventual contratempo, terá sempre três excelentes médicos ao seu dispor: Oswaldo Gutiérrez, seu marido, Oswaldo Filho, seu primogênito, e Paulo Mota, seu irmão, todos meus fraternos amigos. Refiro-me à professora Angela Gutiérrez, líder moderna, no estilo apresentado no livro Liderança Shakti, de autoria dos indianos Nilima Bhatum e Raj Sisodia. No compêndio, a coautora, com a minha admiração, sugere uma liderança a possuir características associadas ao feminino, como cuidado, adaptabilidade, intuição, cooperação, criatividade e empatia. E o coautor, também em sincronia com minhas ideias, incentiva o capitalismo consciente, no qual o empresário tem um propósito maior que o lucro.

Muito agradeço à minha querida mulher, Jaqueline. Vinda dos pampas, de tchê em tchê, a guria de terras tão prósperas acabou por me aceitar como companheiro trilegal. Depois de uma boa conversa com seu chimarrão, passou a amar este nordestino teimoso, que vive a lutar para que os cearenses, depois de bem-educados, possam elevar o Ceará ao nível dos estados mais desenvolvidos.

Obrigado às filhas, Liz, Ana e Hildete, às netas, Luciana, Maria Clara e Ana Carolina, e ao genro, Luciano, pela compreensão em relação ao tempo extraído da família em razão do labor, agora acrescido pela minha disposição de contribuir, no que for possível, para a evolução cultural cearense promovida por este Sodalício.

Sou grato também a todos os que compõem a Organização Educacional Farias Brito, em especial às minhas estimadas irmãs, Hilda e Dayse, que, em minha companhia, dão continuidade à missão de nossa mãe, Hildete, e nosso pai, Ari de Sá Cavalcante. Durante a recente solenidade de posse do diretor de cinema Cacá Diegues na Academia Brasileira de Letras, seu presidente, Marco Lucchesi, declarou: “O cineasta escreve com a luz.” Minhas irmãs e eu temos o privilégio de liderar pessoas que dão luz aos nossos alunos.

Por fim, minha gratidão a todos os presentes. E despeço-me a esperar que esta Casa continue a ser um farol a iluminar a cultura de nosso Ceará, Terra da Luz, terra da mais antiga Academia de Letras do Brasil, terra de Dragão do Mar, de Tomás Pompeu, de Rachel de Queiroz, de Raimundo de Farias Brito, terra de Artur Eduardo Benevides e de tantos outros ilustres cearenses, os aqui nascidos e os de coração, como Genuino Francisco de Sales.

Muito obrigado.