Discursos

06/08/2015

DISCURSO CÂMARA MUNICIPAL DE FORTALEZA (MEDALHA BOTICÁRIO FERREIRA)

Prof. Tales de Sá Cavalcante

Diretor Superintendente da Organização Educacional Farias Brito

Prezadas senhoras e estimados senhores, boa noite!

E surgiu o homem. Uns, criacionistas, consideram-no concebido segundo o Gênesis, quando disse Deus: “Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.”

Outros, evolucionistas, defendem a Evolução Darwiniana. O geneticista Adam Rutherford, em seu livro Criação, assim argumenta: “Pelo menos entre cientistas e aqueles que a compreendem de maneira geral, a seleção natural figura como a principal explicação válida para a variedade da vida na terra, e o ponto preciso onde a vida começou é desconhecido e quase certamente sempre o será.”

Para o físico Stephen Hawking, “quando o homem descobrir a origem do universo terá penetrado na mente de Deus”. Um consenso geral sobre a origem da vida e dos seres humanos talvez seja tão difícil quanto descobrir como surgiu o universo.

Mas é uníssona entre os homens a voz que enaltece a boa convivência. Assim, surgiu a política, como necessidade de ações para organizar o convívio entre cidadãos na pólis, a cidade da Grécia Antiga. Lá, em 594 antes de Cristo, Sólon oficializou a atividade política ao criar o Conselho dos 400, assembleia cujos membros eram eleitos conforme sua riqueza, para elaborar as leis da cidade. Simultaneamente, fundou o tribunal de justiça, para julgar os que contrariassem as normas.

Hoje, 2.609 anos após a criação da atividade política na Grécia, câmaras municipais como esta são semelhantes às assembleias da Cidade Antiga. Atualmente, são mais democráticas. Já não é impedida a participação de cidadão algum e todos são iguais, com votos de mesmo peso, independentemente de suas posses.

Seguindo a tradição das pólis gregas, em 1842, Boticário Ferreira tomou posse como vereador, inaugurando sua brilhante trajetória política. Essa história começou em 1825, quando chegou a Fortaleza, sob a tutela do português Manoel Caetano de Gouveia, o jovem Antônio Rodrigues Ferreira, nascido em Niterói. Como prático em Farmácia, Ferreira salvou a esposa do seu protetor das complicações de um parto. Em agradecimento, Manoel Gouveia concedeu-lhe uma botica. Nomeado vereador, depois foi vice-presidente e também presidente desta Casa. Ao acumular esta função com a de executivo, era um verdadeiro prefeito, como de praxe à época.

Dessa forma, muitas foram as iniciativas e realizações do Boticário Ferreira. Entre as quais, o início da arborização das praças, a participação no planejamento e na organização das ruas de nossa capital, a seguir o traçado em xadrez de Silva Paulet, e diversas obras sociais, como a administração da construção do Hospital da Misericórdia, atual Santa Casa, e também a construção de nossa mais histórica praça. Aquela que pode ser considerada o coração do Centro e da própria Fortaleza e depois passou a se chamar Praça do Ferreira. Justa foi a denominação, pois, há muito, já havia sido conquistada pelo carisma, pela integridade e competência do Boticário lá instalado.

Antes de seu falecimento, a Praça já era de fato do Ferreira. Foi lá que sua botica transformou-se no centro das decisões políticas. E era lá que reinava majestosa a Coluna da Hora, à época de alvenaria e hoje de ferro fundido, a conservar o estilo. Praça com o ponto dos antigos bondes. Neles, os usuários liam a coluna diária “Para ler no bonde”, publicada no Jornal O Estado, e escrita por meu pai, Ari de Sá Cavalcante, sob o pseudônimo de Tales. Lá estava o Palacete Ceará, depois Rotisserie e hoje Caixa Econômica. O Abrigo Central, a esquina da Rouvani, onde os homens torciam pelo vento, e as mulheres, de saia, torciam contra o vento, a Farmácia Pasteur, o Cine São Luiz, onde mais importante que o ingresso era o uso de paletó. Quase sempre ao cinema se seguia o lanche na Lobrás, antiga 4.400, com uma grande novidade: a escada rolante. Em pé, sentados nos históricos bancos e ao redor das bancas de revista, ainda hoje se fala de tudo e de todos, inclusive apostas que vão do futebol às eleições. De certa feita, lá vaiou-se o Sol, que indicava o fim da chuva. É onde, ainda hoje, está a resistente Leão do Sul, com a placa: “Cuidado, a azeitona tem caroço.” A meu juízo, ir ao Centro e não degustar o caldo de cana com pastel da Leão do Sul equivale a ir a Roma e não ver o Papa.

Neste precioso momento, gostaria de expressar sinceros agradecimentos a todos os edis que compõem a Câmara Municipal de Fortaleza, em especial ao líder e presidente, Salmito Filho, e ao grande radialista e homem público, vereador Fábio Braga, e ao meu prezado amigo da Prainha do Canto Verde Valdércio Branco, que juntamente com os nativos da Prainha, vários aqui presentes, são grandes lutadores para o desenvolvimento daquela praia.

Merecedor em 2010 da mesma Medalha que ora recebo, Fábio também foi condecorado com a Comenda Monsenhor Manuel Estelita, concedida pela Paróquia de Nossa Senhora das Graças, do Pirambu.  Recebeu, ainda, o Título de Cidadão Honorário Benfeitor da Comunidade do Pirambu, bairro a que se dedica de corpo e alma. É ele o autor do requerimento que, aprovado também pelos outros vereadores, concedeu-me a Medalha Boticário Ferreira.

Segundo o professor Marcelo Bispo, “é motivo de orgulho uma condecoração como esta”. Porém, sem desrespeitar as comendas, acha ele que “a principal medalha para um educador é um gesto de reconhecimento do ex-aluno”. Para o Farias Brito, com 80 anos dedicados à educação, o ouro de uma medalha é ver, saber e sentir que seu ex-aluno está a brilhar. Para tanto, educamos sob a máxima de Genuino Sales: “O homem é um ser inconcluso, que aprende enquanto vive e que vive enquanto aprende.”

Ao agradecer aos nobres vereadores, peço vênia para, humildemente, considerar-me apenas o veículo a fazer chegar esta Medalha aos seus reais merecedores: meus colegas de labor do único local onde trabalhei em toda a minha vida. Refiro-me às minhas queridas irmãs, Hilda e Dayse, mais irmãs que sócias e mais educadoras que empresárias. E também aos 1.643 colaboradores, entre professores, técnicos e assistentes administrativos da Organização Educacional Farias Brito.

Sou muito grato à minha família pela compreensão dessa injusta divisão do tempo nestes curtos dias de apenas 24 horas. Obrigado às minhas filhas, Liz, Ana Carmen e Hildete, e à minha querida mulher, Jaqueline, companheira de todas as horas. E, ao agradecer-lhe, parafraseio famosa citação de Napoleão Bonaparte, que exprimiu assim sua relação com o vinho mais adequado às comemorações: “Nas vitórias, eu comemoro com o champanhe; e, nas derrotas, eu preciso dele.” Da mesma forma, reverencio minha mulher, Jaqueline, a dizer que nas vitórias eu comemoro com ela e nas derrotas eu preciso dela.

Quando iniciei minha oração, incentivei o questionamento sobre nossa origem. Ao finalizá-la, peço vênia pela ousadia de mais uma vez apresentar um desafio. É que a dúvida e a curiosidade devem sempre ser enaltecidas, pois delas nascem as grandes invenções. Nosso maior enriquecimento é a amizade e nossos melhores momentos são aqueles vivenciados com a família e os amigos. Diante disso, poderíamos indagar: “E após essa maravilhosa e fraterna vida para onde iremos?”

Apenas com a crença dogmática e sem a certeza científica desse duvidoso destino, resta-nos a conscientização de que cada um de nós tem uma missão a cumprir. O Boticário Ferreira, entre outras tantas obras, construiu a Santa Casa. Cada um de nós tem sua “Santa Casa” e outras obras a construir, principalmente nos dias atuais, quando nosso país atravessa uma de suas piores crises. Poderíamos até classificá-la como de ordens econômica, política, social e moral. É, pois, nossa obrigação fazer com que, num futuro breve, a grande maioria dos brasileiros tenha como principais metas o bem da família, dos amigos, dos que com eles trabalham e o amor à nossa terra. Só há um caminho para chegarmos a esse nível: a educação.

Ao vivenciarmos hoje a entrega de uma Comenda a um educador, certo de que mais vale a causa que o homem, espero que minha interpretação deste ato se multiplique. Na realidade, a Câmara Municipal de Fortaleza homenageia hoje a educação e, assim, dá um exemplo à nação, que, se seguido, poderá fazer com que nos tornemos realmente uma Pátria Educadora.

Muito obrigado.

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