Entrevista

16/11/2009

Um exame nacional não faz sentido

Prof. Tales de Sá Cavalcante

Diretor Superintendente da Organização Educacional Farias Brito

Para o diretor de uma das maiores escolas do país, vestibulares regionais têm mais sentido do que o Enem, feito e distribuído pelo MEC
Marco Bahé

O Enem pode ter ganhado força, mas está longe da unanimidade. Um dos maiores críticos ao modelo centralizado de provas
é o professor Tales de Sá Cavalcante, líder de um grupo educacional com mais de 14 mil estudantes, que vai da educação
infantil ao ensino superior. Como diretor superintendente do grupo Farias Brito, Cavalcante já afirmava que o exame era
vulnerável antes do vazamento do Enem, em setembro. Agora, ele defende o fim da prova única, a produção regionalizada
dos exames e o envolvimento das universidades na elaboração do conteúdo.

ÉPOCA – Qual é o problema do Enem?

Tales de Sá Cavalcante – Ele foi criado em 1988 com o objetivo de avaliar o estudante ao final de sua escolaridade
básica em cinco eixos cognitivos: domínio das linguagens, compreensão de fenômenos, enfrentamento de situações
problemas, construção de argumentação sólida e elaboração de propostas coerentes. De início, era uma avaliação individual,
e o resultado também. Hoje, passou a ser o vestibular, ou parte deste, em muitas instituições. Foi contratado um consórcio
que se comportou como se o exame ainda fosse não decisório para a ocupação de preciosas vagas no ensino superior.
Cuidaram bem da elaboração das provas, e não do empacotamento, armazenamento e distribuição. O pessoal teve muito
cuidado na elaboração. Mas, infelizmente, na logística eles fracassaram. O espírito do Enem tem sido o mesmo desde sua
criação, que foi uma coisa muito boa. Aqui não vai crítica a ninguém. Eu apenas discordo desse modelo, no qual se elabora
uma prova em Brasília e se distribui para o resto do país. O que deveria haver é uma delegação de responsabilidade aos
vários Estados. É como eu digo: o avião é excelente, os projetistas são muito bons. O problema está na hora de pilotar.

ÉPOCA – Qual seria o modelo ideal?

Cavalcante – O Ministério da Educação deveria reunir as universidades, apresentar todos os conteúdos programados
dentro da filosofia do Enem. Todos os vestibulares do Brasil teriam de ficar dentro dessa filosofia. Mas cada universidade
faria seu próprio vestibular.

ÉPOCA – Mas o aluno não perde a oportunidade de participar de um só exame nacional que serve para
várias instituições de ensino?

Cavalcante – Você tem outros mecanismos para que o aluno possa fazer isso regionalmente. Porexemplo, o exame da
Universidade Federal do Ceará poderia ser apresentado em outra universidade e ser aceito como parte da seleção. É
importante destacar também que a gente não sente essa ansiedade do aluno em fazer exames em vários Estados.
Geralmente, ele tenta o acesso em diferentes universidades de seu próprio Estado. Só uma pequena parcela busca
oportunidades fora.

ÉPOCA – Delegar a elaboração das provas aos Estados não seria um retorno ao modelo tradicional de
vestibular?

Cavalcante – Algumas universidades, como a Federal do Ceará e a Unicamp, já usam um modelo semelhante ao Enem.
Para que se acabe com o modelo tradicional de vestibular, o MEC só precisa traçar as diretrizes. Não precisa elaborar as
provas. Será sempre muito difícil produzir uma prova de São Paulo e aplicá-la em Manaus. Deixar por conta dos Estados
também permite regionalizar o conteúdo.

Fonte: Revista Época

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